
Os tios em nossas vidas
Mas será que os tios têm ideia de quanto são importantes em nossas vidas? Eles podem ser como nossos segundos ou terceiros pais – e quantos deles não assumem, literalmente, a criação e o sustento de seus sobrinhos numa ausência física ou emocional dos pais biológicos? Eles podem ser vistos como aquela figura que equilibra o rigor dos pais e a doçura dos avós: não têm obrigação de educar o tempo todo nem de paparicar sempre. Podem ser também encarados como aquelas pessoas mais experientes, que parecem muito com nossos pais, mas não são; e, portanto, muitas vezes nos sentimos mais à vontade de conversar com eles assuntos que exigem ser tratados com carinho, só que com um distanciamento emocional que talvez nossos pais não consigam.
Cresci com duas tias muito próximas a mim. Uma delas é a irmã da minha mãe, Livia, que mora há muito tempo na Itália, mas, mesmo assim, está sempre muito perto. Sempre fizemos questão de manter nossa estreita relação, mesmo à distância – antes, por ligações telefônicas, e, mais recentemente, também por Skype, Whatsapp e o que mais a tecnologia nos oferecer para não nos perdermos de vista. A outra era um pouco mais do que tia: Ernesta, nascida na Itália e que passou a maior parte de sua vida no Brasil, era minha tia-avó, o que potencializava um pouco mais as doses de doçura.
Minhas memórias de infância na casa dela ainda são muito vivas: o aroma doce de alguma guloseima que preparava no forno de seu fogão; o sabor das massas feitas à mão; as bonecas de pano que me ensinou a costurar; a risada solta; as antigas músicas italianas que cantarolava com emoção; a tarentella que dançava com alegria; os presentinhos que distribuía para as crianças logo após o Natal, em nome da Befana, figura do folclore italiano que se assemelha a uma bruxa do bem, e os versinhos que recitava na ocasião:
“La Befana vien di notte com le scarpe tutte rotte col vestito alla romana: Viva viva la Befana!”. Muitas lembranças relacionadas à tia Ernesta vêm também da minha fase de adolescente e adulta, mas as da infância são as mais marcantes para mim e me acompanham até hoje.
Ah, se os tios soubessem o quanto são importantes nas nossas vidas, na nossa formação, será que eles não transformariam esse amor que pode ser voluntário que sentem por nós, sobrinhos, em amor essencial?
Em memória à minha querida tia Ernesta (1926-2016), que esteve presente da minha vida desde que nasci
Adriana Del Re
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