quarta-feira, 29 de março de 2017

Mulher de Domingos Montagner, Luciana Lima fala sobre a morte do ator e as homenagens de sua companhia

quarta-feira, 29 de março de 2017

A atriz e artista circense curitibana Luciana Lima, 43, estava em casa, em Embu das Artes, na Grande São Paulo, no momento em que recebeu o telefonema que confirmava a mortedo marido, o ator Domingos Montagner. A portadora da notícia foi Mônica Albuquerque, diretora de produção da TV Globo. Eram 18h de quinta-feira, 15 de setembro do ano passado, e desde as 15h Montagner era procurado por helicópteros e equipes de resgate. Ele havia desaparecido nas águas do Rio São Francisco, em Sergipe, onde gravava as cenas finais de Velho Chico, novela da qual era protagonista. Ao saber da morte, rodeada de amigos, Luciana reuniu os filhos do casal – Leo, 13, Antonio, 10, e Dante, 6 – e repassou-lhes a trágica notícia.
Seis meses depois do acidente, ela recebeu Marie Claire para sua primeira entrevista, em que fala sobre os momentos de dor e também sobre a reconstrução da vida. Entre os projetos que trazem significado a seus dias, estão as comemorações dos 20 anos da La Mínina, companhia de teatro na qual trabalha como produtora, fundada por Montagnere por Fernando Sampaio, “o outro casamento de Domingos”, como ela mesma brinca. O nome vem dessa união: se um ator só não faz uma trupe, no mínimo há de haver dois.
Nesta entrevista, Lucianatambém revela pequenos detalhes sobre a personalidade do marido. Tinha perfil metódico e detalhista. Não guardava, por exemplo, objetos quebrados ou remendados. Gostava de acordar cedo e ter um tempo só para si. Agenor, palhaço que interpretava na La Mínima desde 1997, não era de sorrir, fazia mais o tipo sisudo, contraponto com o festivo Padoca, que Fernando encarnava. Conta ainda que os atores Fernando Paz e Filipe Bregantim substituem Montagner em papéis originalmente interpretados por ele, nas peças concebidas durante toda a trajetória do grupo.
Marie Claire Como conheceu Domingos Montagner?
Luciana Lima
 Foi em 1999, em Natal, onde eu morava. Ele foi convidado para se apresentar na cidade e fiz o receptivo da companhia durante o evento. Eu era integrante de um grupo de teatro, o Clowns de Shakespeare. O Domingos ficou 15 dias por lá, tempo suficiente para a gente trocar umas figurinhas. Depois voltou para São Paulo e namoramos quase um ano a distância. Fui me envolvendo, me inteirando sobre o universo do circo e aquilo me deu “coceira”. Mudei para São Paulo em novembro de 2000, quando a linguagem circense estava entrando no cenário teatral.
MC Como era a cena circense no Brasil naquela época?
LL
 Mambembe. No começo, a gente montava espetáculos com coisas que tinha em casa, emprestadas dos amigos. O marco foi o ano de 1999, quando um festival no Sesc reuniu artistas de circo e o pessoal de teatro, que se juntaram com muita força. Foi arrebatador mesmo. Todos saímos dali muito extasiados e montamos um núcleo, o Central do Circo, porque aquela energia não podia morrer. Nossa vontade era renovar a linguagem, tornar o circo mais profissional, atrair investidores. Depois, veio a política pública. Em janeiro de 2004, a gente alugou uma lona e foi para Boiçucanga, no litoral de São Paulo. Foi uma experiência incrível. Durante um mês, fizemos sessão de terça a domingo. Filas e mais filas. Começamos a ganhar visibilidade e respeito com o Circo Zanni. As pessoas olhavam e falavam: “Nossa, pode fazer circo assim, sem animais, tão humano?”.
MC Quando Domingos morreu, você pensou em desistir da comemoração de 20 anos da La Mínima?
LL O acidente abriu aquele buraco e ficamos sem chão. Ainda é muito turvo o que vivi nas primeiras semanas, mas em nenhum momento passou pela minha cabeça desistir. À medida que o tempo foi passando, as coisas ficaram mais claras. Um mês depois, já comecei a pensar nos 20 anos da companhia junto com o Fernando. Estávamos conversando e ele ficou todo sem jeito de me perguntar o que faríamos. Entendemos que não dava para parar. A celebração virou uma homenagem ao Domingos.
MC No dia do acidente, como você recebeu a notícia?
LL
 Não acompanhei as redes sociais, onde o desaparecimento era assunto desde as 14h. Quando deu umas 15h, o empresário dele me ligou, eu estava no galpão. Senti um tom preocupado em sua voz. Aí começou o processo. Liguei para a escola dos meus filhos, pedi que saíssem mais cedo para evitar que deparassem com o burburinho. O mais velho estava em casa. Assim que cheguei, disse a ele o que estava acontecendo, e ele respondeu: “Não vai acontecer nada, meu pai sabe nadar e não pode ir contra a correnteza. Vai se deixar levar, alguém vai encontrá-lo”. Concordei e pedi para não entrar em redes sociais. Perto das 18h, chegaram os pequenininhos – muitos amigos nossos já estavam ali conosco. Expliquei o que acontecia. O do meio começou a chorar, depois o menor. Mônica Albuquerque, diretora de produção da Globo, ligou pouco depois e disse: “Lu”. Nesse “Lu”, eu senti. “Você não tem uma boa notícia para mim?”, perguntei. Ela disse que não.
MC Como é se readaptar nesse momento após a perda?
LL É um exercício. Estamos ressignificando os lugares que frequentávamos com ele, alimentamos memórias. Mas as crianças assimilam a perda de outra maneira: o agora é mais importante do que o amanhã.
MC Então são eles que a ajudam...
LL
 Diariamente. É o imediatismo deles que me sustenta. Estamos aprendendo a viver nessa configuração de família.

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